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O que é o tédio?
É não estar confortável apenas com a própria companhia. É tão difícil suportar a si mesmo que estando a sós e em silêncio já começamos a fantasiar o que poderia estar acontecendo ou começamos a revisar o passado, diálogos que passaram e ficamos criando respostas melhores do que as que fomos capazes.
Estou só e em silêncio, fantasiando, revisando, me entediando. Eu não acho a minha companhia agradável o tempo inteiro, é bem o contrário: me chateio, me acho isso ou aquilo, eu fico me julgando. Não está tão tarde para dormir, nem tão cedo para sair, e se estou em casa exatamente agora tenho que ficar frente a frente comigo mesma, presa na minha relação mais duradoura. Estou neste relacionamento há 22 anos e ainda não aprendi a me amar profundamente, incondicionalmente, então como é que posso amar alguma outra pessoa assim?
Acordo atrasada e já me passam mil palavras feias para se referir a mim de um jeito que eu não falaria com quase ninguém. Eu me estresso com os meus defeitos todos os dias, me irrito com as minhas falhas, eu fico de cara com a minha imperfeição. Já experimentou ficar quieto? Só por uns instantes, se concentrar dentro de si? Sem ouvir música, sem colocar um filme, sem ler nada. Estou ouvindo música agora porque não suporto silêncio, ainda mais se for a noite, então não vou julgar quem prefere deixar a TV ligada para dormir, ou para pensar melhor, ou para não se sentir sozinho. Mas sério, já tentou ouvir uma voz que existe lá dentro de si, já tentou ficar consciente sobre si? No início é perturbador, porque você não pode ignorar certas coisas, coisas que ignora facilmente na correria que é a vida irreal que fazem a gente viver, mas sei lá, às vezes você pode começar a finalmente se enxergar.
Quem somos além do que temos? Quem eu seria se não tivesse nada, nem esse nome, essa educação. Não poderia dizer que sou o que eu sei fazer, e nem apresentar uns certificados para provar para alguém as habilidades que possuo. O que eu seria se não tivesse ninguém olhando, se eu não precisasse provar nada, nem seguir nenhuma regra, só o meu coração? É terrível imaginar viver por si mesmo, não é? A
liberdade custa a responsabilidade e ninguém quer se responsabilizar por tanto. Então todos os desejos de ser livre são apenas mentiras que a gente conta para si na tentativa de culpar qualquer outra coisa pela nossa escravidão mental.
A minha mente está limitada, eu vejo claramente. Limitada pelas coisas que eu já sei, então quando eu vejo a margem eu paro, porque acho que não há mais nada ali fora. Mas tem! Imagina isso, enquanto escrevo percebo que a minha escrita se limita à 30 linhas, a mesma quantidade estúpida cobrada em vestibulares e concursos. Então toda vez que me liberto é para me prender a outra coisa? Faço isso sem notar. Mas eu notei agora. Mesmo assim tudo que não vi sobre mim ainda me controla. Já tentou reparar nos seus comportamentos e pensar por quê age de tal jeito? As nossas reações falam muito sobre nós e é tão automático que viram só repetições, por isso tanto deja vú, tanta angústia. Até escrever é uma atitude previsível minha, é tão eu vir aqui falar e não me levantar e realmente mudar um comportamento. Senti
medo de ser a dona de palavras vazias, de não me tocar lá no fundo e me despertar também. De que me servem tantas páginas, são só mais uma coisa, estou ficando perdida no que significa tudo isso.
Espera. Estou indo rápido e por isso a leitura ficou difícil. Eu também me perdi. Preciso me levantar e fazer algo, mudar qualquer coisa por aqui. Por quê é tão difícil me olhar? Por quê quem eu sou me desagrada tanto? E não estou falando do meu rosto que fica tão bem nas fotos e não falam absolutamente nada sobre mim, tem algo além que eu deixei de notar em algum momento da minha existência. Selfies também são uma criação da nossa era para nos distrair do que é importante. Sério? Será mesmo que a melhor coisa que eu posso olhar ao redor é meu próprio rosto e nada além? Será que eu preciso de maquiagem e uma roupa descolada para me amar? E por quanto tempo? Enquanto durarem as curtidas e depois eu preciso correr para tirar outra? Será que eu confundo isso com aceitação? Eu quero que vejam a minha máscara para que não vejam o monstro por dentro. Ah, amigos, aqui de onde eu vejo não é tão bonito, os deixariam assustados, e eu não vou contar porque vou florear demais e vão esquecer que estou falando de um mal. As palavras têm disso e nós temos mais ainda. Aprendemos direitinho a hipocrisia nossa de cada dia. Tudo está falso.
Como eu vou aprender amor e não auto indulgência? Como é, pelo amor dos deuses, que não se confunde isso à primeira vista? Como é que eu entendo que se aceitar é diferente de se justificar e se absolver das responsabilidades? A resposta parece bem perto, mas não consigo ouvir nada. Não é só sobre ser melhor, é sobre ver como se é no momento. A maioria das pessoas quer ser melhor mas não sabe exatamente o que tem que mudar dentro delas para ser esse ser tão melhor, por isso que nada disso vai para frente. E eu sei disso porque estou com elas..
Letícia de Queiroz
Enviado por Letícia de Queiroz em 08/02/2018
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